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3 de Julho de 2022

Os filhos da violência de gênero

Alice Bianchini, Advogado
Publicado por Alice Bianchini
há 5 anos

Maitê Proença quebrou o silêncio de longos anos e, de forma corajosa, falou sobre o seu drama familiar. Ela tinha 12 anos quando o seu pai matou a mãe dela com 16 facadas. Seu desabafo serve de alerta: "Quando acontece uma coisa, não é só a mãe que sofre, as outras vítimas também sofrem. A violência atinge a todos. Eu tinha dois irmãos, um se matou de tanto beber e o outro entrou para as drogas pesadas. Meu pai acabou se matando também. Então, quem sobrevive a isso, como no meu caso, passa a vida perguntando se tem valor. Por que eu não consegui impedir? Ninguém pensou na gente, naquela estrutura alegre, nada daquilo foi levado em conta".[1]

Estudos demonstram os danos advindos do fato de a criança ou o adolescente testemunhar episódios de violência entre seus pais ou pessoas próximas de si. É a chamada vitimização indireta. Essa pessoa, apesar de não ter sofrido nenhuma violência, é contagiada pelo impacto da violência dirigida contra uma pessoa com quem mantém uma relação próxima. A violência contra a mãe, nesses casos, é uma forma de violência psicológica contra a criança.

Conforme dados trazidos no estudo "Um Rosto Familiar: a violência na vida de crianças e adolescentes", da Unicef, publicado em 2017, uma em cada quatro crianças menores de 5 anos, no mundo, ou seja, cerca 177 milhões, vive com uma mãe vítima de violência doméstica.

No Brasil, de acordo com o relatório do Ligue 180 – Balanço 2016.1, mais de 80% dos filhos presenciaram ou também sofreram violência junto com as mães.[2]

Os impactos da violência direta também são sentidos na perpetuação do fenômeno da violência, levando a que, por meio de processos psíquicos interiorizados, ela seja reproduzida pela vitima indireta em outro momento de sua vida.

É disso que trata a violência transgeracional. Pesquisas feitas com agressores mostram um histórico de vida muito comum entre eles: “um percentual elevado dos futuros agressores foram anteriormente ou tem sido testemunhas destas condutas violentas que foram aprendidas durante os períodos de desenvolvimento e maturação do indivíduo.”[3] Daí o caráter transgeracional desse tipo de violência, que atinge os homens e as mulheres, embora por conta de fenômenos psíquicos diversos. Para os homens o que prevalece é a apreensão do comportamento agressivo; para as mulheres, o que elas aprendem diz com a submissão, com a obediência, com o conformar-se com o seu “destino”.

Os prejuízos para os filhos ocorrem em todos os níveis: social, psicológico, emocional e comportamental, “afetando de forma altamente negativa seu bem-estar e seu desenvolvimento, com sequelas a longo prazo que, inclusive, pode chegar a transmitir-se por meio de sucessivas gerações.”[4]

Compromete, portanto, o desenvolvimento futuro dos indivíduos imersos nesse ambiente conflitivo. E comprometendo-os, compromete toda a futura sociedade. O pai e a mãe são importantes figuras de apego e referência para a vida dos filhos e para os comportamentos que terão quando da fase adulta.

Algumas teorias buscam explicar os efeitos da violência familiar aos filhos menores de idade:

- TEORIA DA APRENDIZAGEM SOCIAL: “a exposição dos filhos à violência de gênero provoca a internalização e aprendizagem de modelos violentos e papeis de gênero errôneos.”[5]

- TEORIA DO DESAMPARO APRENDIDO: “a incapacidade para prevenir o momento, o lugar, a intensidade em que se vai produzir a violência, ou seja, a falta de controle da mesma, provocaria estados de desamparo tanto nas vitimas diretas como nas indiretas. [...] O desamparo [por sua vez] seria a causa pela qual muitas mulheres maltratadas não reagem ante a violência, mantendo uma convivência nociva para elas e para seus filhos. Tudo isso com independência de sua formação, êxito profissional e situação econômica.”[6]

- TEORIA SISTÊMICA[7]: a violência familiar afeta as práticas das crianças de três formas:

a) a violência geralmente causa estresse na mãe, o que prejudica consideravelmente sua função parental;

b) a agressão e hostilidade expressada contra a mulher geralmente também é dirigida contra os filhos. “O agressor, após um episódio violento com sua companheira, dificilmente modifica seu estado emocional para interagir com os filhos, sendo inclinado a empregar um repertório comportamental agressivo com estratégias de disciplina negativas, que indubitavelmente afetará o menor.”[8]

c) inconsistência na educação dos filhos. “Em uma família disfuncional desta natureza, o habitual é que os progenitores ou cuidadores das crianças não consensuem no estilo educativo e em relação ás normas que devem cumprir os menores.”[9]

Importante compreender, entretanto, que “sofrer o trauma da violência familiar e a ruptura dos progenitores, não supõe indefectivelmente ser uma pessoa desiquilibrada, violenta e machista, sem possibilidade de um futuro normal. Porém, para isso, requer-se políticas de intervenção integral com a família, que fomentem, principalmente, o empoderamento de todos os seus membros, a igualdade entre homens e mulheres, a cultura da paz e o respeito. Porque somente intervenções integrais deste tipo permitem que se alcance, no futuro, a verdadeira convivência em igualdade entre homens e mulheres, para que todos os cidadãos, independentemente de seu sexo e de seu gênero sejam iguais de direito e de fato.”[10]


[1] Disponível em: http://diversao.r7.com/tveentretenimento/maite-proenca-relembra-da-mae-assassinada-com-16-facadas-...

[2] http://www.spm.gov.br/balanco180_2016-3.pdf

[3] CARRILLO DE ALBORDOZ, Eduardo. Aspectos clínicos y médico-legales de la violencia de género. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 170.

[4] SEIJO MARTÍNEZ, Dolores. La violencia doméstica: repercusiones en los hijos. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 120.

[5] SEIJO MARTÍNEZ, Dolores. La violencia doméstica: repercusiones en los hijos. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 126.

[6] SEIJO MARTÍNEZ, Dolores. La violencia doméstica: repercusiones en los hijos. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 126-7.

[7] SEIJO MARTÍNEZ, Dolores. La violencia doméstica: repercusiones en los hijos. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 127.

[8] SEIJO MARTÍNEZ, Dolores. La violencia doméstica: repercusiones en los hijos. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 127.

[9] SEIJO MARTÍNEZ, Dolores. La violencia doméstica: repercusiones en los hijos. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 127.

[10] FARIÑA RIVERA, Francisca. ARCE FERNÁNDEZ, Ramón. SEIJO MARTINEZ, Dolores. Programa de ayuda a hijos que han vivido violencia familiar. In: FARIÑA, Francisca, ARCE Ramón, BUELA-CASAL Gualberto (eds.). Violencia de género: tratado psicológico y legal. Madrid: Biblioteca Nueva, 2015, p. 262-3.

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16 Comentários

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Já diziam os antigos: "casa do pai, escola do filho". É claro que o ambiente doméstico irá influenciar toda a vida do jovem em formação, bem como seu caráter. É notório que a violência doméstica vitimiza toda a família e não apenas aquele que sofreu a violência diretamente. Um fato interessante que aqui não foi comentado: não raramente, filhos que presenciam violência do pai contra a mãe, podem crescer com sentimentos e desejos de vingança. E não é raro se ouvir falar de um filho que entrou nas vias de fatos com o pai em algum momento durante a adolescência ou início da vida adulta. É a raiva de uma infância infeliz sendo exteriorizada ali naquele triste episódio. São vidas marcadas. continuar lendo

Christina Morais, hoje, vou usar seus comentários como sendo "meus" também. Muitos sofrimentos na infância, mãe espancada por pai e depois por padastro...Reconheço, tenho arrependimentos e peço perdão a Deus e a ela, todos os dias,por também ter sido no passado,um marido não espancador, mas grosso e agressivo. Felizmente ela suportou, e já comemoramos mais de 50 anos de casamento. Sabedor de que NÃO mereço perdão, as vezes choro sozinho ao lembrar desse passado, como criança e como marido... continuar lendo

verdade, os meus filhos sofria juntos comigo de violência domestica. Os três tem problemas , paguei varias sessão de terapia. Mas, ainda a minha pequena que apanhou do pai , não é agressiva. Mas, não aceitar a visitação do pai. E começa ser agressiva, quando diz o nome dele..... o filhos que sofrem de violência nunca é a mesma pessoa. Todos sabermos onde há amor na família , há um campo de jardim florido. Onde há violência só há erva daninha.... continuar lendo

Bom artigo! Necessitamos falar mais sobre as questões "escondidas" no âmbito famíliar. A violência social começa na família. continuar lendo

A criança é uma benção na vida dos pais, mas infelizmente existem alguns que não dão o devido valor a essa criaturazinha tão dependente. Mas Deus deixa claro em Sua Palavra, e nós como pais temos que ensinar e cuidar com muito amor e carinho nossos filhos.
Quando bebê iniciasse todo o aprendizado dos 6 até 1 ano, as primeiras palavras, os primeiros passos, a partir de 1 ano tudo que a criança vê acaba absorvendo para si, é importante que os pais tenham cuidado com as brigas, com as palavras para que a criança não aprenda e aplique em sua vida.
Acho incrível a minha vizinha que mora de frente a minha casa, essa família é muito simples e o palavrão rola solto, então a filha mais nova dela que tem 3 anos já fala todo o tipo de palavrão é inacreditável a capacidade que essa criança tem, mas não é porque é pobre que tem que ser mal educado, por isso tenham cuidado pais.

Da infância para a adolescência, fase em que há o descobrimento maior do que é o mundo e tudo que ele aprendeu, como educação, saber como se comportar... Se o adolescente não teve uma boa educação provavelmente ele irá se tornar mais rebelde, amizades que vão leva-lo a quem sabe drogas, prostituição, preguiça para trabalhar... Então essa é a fase mais difícil para os pais controlarem seus filhos.
Por isso fica a dica, ensina com muito amor, mostra a palavra de Deus ao seu filho, ensina a orar, a louvar, Deus tem que fazer parte da educação de seu filho também.

E é nessa fase onde será mostrado tudo que você pai e mãe ensinou, o futuro de seu filho será feito em sua fase de adulto, independência, tomas suas próprias decisões, claro que também boa parte do aprendizado virá das amizades, convivências, experiências. Mas os pais não estão fora dessa fase não, chamar a atenção, conversar são indispensáveis, pois a voz da sua experiência será muito importante nessa fase, mostrar que Jesus em sua fase de adulto aqui na terra fez a diferença.

Amigos e amigas leitores, você que é pai ponha Deus no ensinamento de seus filhos, Pois Deus irá ajudar no bom crescimento de seu filho com certeza. Lembre-se você será sempre um exemplo. continuar lendo

O texto fala em igualdade, porém busca de forma totalmente infundada um valor maior para a vida da mulher.
A vida é o bem maior do ser humano e não existe desigualdade em relação a gênero.
Logicamente, sou totalmente contrário a violência doméstica, seja ela partida do homem, ou da mulher, devendo sempre existir uma punição adequada para o agressor, com todas as agravantes e qualificadoras existentes no Código Penal.
Porém, atribuir uma pena diferenciada quando a vítima é do sexo feminino, parece contrariar o princípio constitucional da isonomia. continuar lendo

Exatamente. A igualdade cidadã é um dos pilares do Estado Democrático de Direito. Esse texto enviesado, mal-escrito e propagandístico é um dos elementos do Estado de Exceção, no caso, estereotipar que no lar, o papai (homem) é o monstro e a mamãe e as crianças correm perigo. Além de apologia explícita para a alienação parental, o real objetivo dessas leis de violência doméstica é criar um ambiente jurídico anti-homem para remover da vida pública homens politicamente indesejados: Julian Assange está sob custódia por ter 'estuprado uma jornalista'; Bolsonaro talvez fique inelegível por ter 'violentado uma colega de plenário', dentre outros inúmeros exemplos. continuar lendo

Vocês não entenderam nada. continuar lendo

procurem saber mais sobre igualdade e equidade, e vão entender o porque da mulher e crianças necessitarem ter uma proteção maior continuar lendo

Gostei muito do seu artigo. Questões familiares interferem na aprendizagem escolar e social. O ciclo de violência precisa ser quebrado. continuar lendo